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Showrunner de “Daredevil: Born Again” diz ter ficado “chocado” com paralelos entre trama e ações do ICE

Showrunner de “Daredevil: Born Again” diz ter ficado “chocado” com paralelos entre trama e ações do ICE
Showrunner de “Daredevil: Born Again” diz ter ficado “chocado” com paralelos entre trama e ações do ICE
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Ao acompanhar a segunda temporada de “Daredevil: Born Again”, muitos espectadores podem sentir que a série está, de algum modo, repetindo acontecimentos do mundo real. E essa impressão não ficou apenas na cabeça do público. O showrunner Dario Scardapane afirmou ter ficado “chocado” ao perceber paralelos entre a história criada para a trama — envolvendo uma força-tarefa criada para combater “vigilantes” — e a forma como o ICE (agência de imigração dos Estados Unidos) passou a agir na vida real.

O comentário foi feito em entrevista ao TheWrap às vésperas da estreia da Temporada 2, que já está disponível no Disney+. A série, que retorna ao universo de Marvel com foco em Nova York, retoma o cenário após a consolidação do poder de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio). Na nova fase, a cidade passa a viver sob um regime de exceção, com medidas que restringem liberdades e ampliam o alcance de operações conduzidas por agentes ligados ao próprio governo.

Nova York sob “lei marcial” e a força-tarefa contra vigilantes

Em “Daredevil: Born Again”, Fisk assume o controle de Nova York em um contexto de forte tensão política e social. A narrativa descreve a cidade como submetida a lei marcial, e, para conter qualquer ameaça — especialmente ações atribuídas a vigilantes —, Fisk cria a Anti-Vigilante Task Force. A proposta, apresentada como uma forma de “restaurar a ordem”, rapidamente se revela mais sombria do que aparenta.

Nos primeiros episódios da temporada, a força-tarefa é mostrada como letal e imprevisível. Os agentes passam a retirar pessoas das ruas mesmo quando elas não cometeram crimes. A série enfatiza que a detenção ocorre em um local secreto, sem o tipo de transparência e garantias que normalmente seriam esperadas em um Estado de direito. Na prática, os membros da força-tarefa ganham margem para atuar fora da lei, transformando a “segurança” em um instrumento de intimidação.

É justamente esse tipo de dinâmica — a criação de um aparato armado, a perseguição de grupos vulneráveis e a operação com pouca ou nenhuma supervisão — que, segundo Scardapane, começou a ecoar em acontecimentos reais.

“Imagens quase exatas”: o susto do showrunner

De acordo com o showrunner, o choque veio quando a equipe passou a acompanhar notícias e a perceber que elementos visuais e comportamentais da trama pareciam se aproximar do que era mostrado na cobertura de ações do ICE. Scardapane disse ter ficado “surpreso” e “chocado” ao notar que a semelhança não era apenas temática, mas também estética.

Ele explicou que as roupas e a concepção de parte do que aparece na série foram desenvolvidas com antecedência, ainda durante a produção anterior. Segundo Scardapane, os figurinos utilizados na história teriam sido desenhados há cerca de 10 anos nos quadrinhos, e que as versões vistas na temporada teriam sido trabalhadas no contexto do que a equipe já havia planejado para a temporada anterior. Ainda assim, ao comparar com imagens divulgadas na imprensa, a semelhança teria sido tão grande que ele descreveu como “quase exata”.

“O que é louco nisso é que, você sabe, esses trajes foram desenhados há 10 anos nos quadrinhos… os trajes que fizemos na última temporada, as operações que escrevemos há um ano e meio. E então você vai editando e olha as notícias, e as imagens eram quase idênticas. Não dá para dizer que a gente poderia ter planejado isso. Foi arrepiante”, afirmou Scardapane.

O impacto do comentário está no contraste entre ficção e realidade. A série, por ser uma obra de entretenimento, costuma trabalhar com exageros e construções dramáticas. Mas, quando o próprio criador diz que a ficção passou a refletir o noticiário de forma tão próxima, o efeito é de desconforto — e também de reflexão sobre como certos padrões autoritários podem se repetir.

Um “playbook” histórico de ascensão de autocratas

Além da semelhança visual, Scardapane também apontou um padrão histórico. Para ele, a trama da temporada 2 funciona como uma espécie de retrato do modo como autocratas costumam ganhar espaço e consolidar poder. Em sua leitura, o roteiro se conecta a uma lógica recorrente: a formação de uma milícia, a escolha de um alvo entre comunidades marginalizadas, o controle dos meios de comunicação e o uso de pressão para financiar e sustentar as operações.

O showrunner citou referências históricas para reforçar a ideia de repetição. Ele mencionou exemplos associados a diferentes períodos e regimes, como Franco, Pinochet e até Nero, como forma de ilustrar que a história, muitas vezes, repete seus mecanismos. A frase final, no tom de alerta, foi direta: a sensação de que “a história está condenada a se repetir”.

Em meio ao clima pesado do comentário, a produção também trouxe um respiro. A executiva produtora Sana Amanat brincou com Scardapane, dizendo que teria pedido para ele “parar de escrever”, já que as semelhanças com o mundo real estavam ficando intensas demais.

Quando a ficção encontra o noticiário

O episódio descrito por Scardapane chama atenção por um motivo específico: não se trata apenas de coincidência entre temas genéricos. A comparação feita pelo showrunner envolve elementos concretos — desde a concepção de figurinos até o modo como operações são conduzidas e retratadas. Isso sugere que a série, mesmo sem intenção de reproduzir eventos específicos, acabou tocando em estruturas que aparecem em diferentes contextos políticos.

Para o público, a leitura pode ser dupla. De um lado, há a experiência de acompanhar uma narrativa de suspense e ação, com personagens lidando com um poder que se torna cada vez mais opressivo. De outro, há a sensação incômoda de que a ficção está dialogando com o presente, e que o que deveria ser apenas “história” pode, em certos aspectos, estar próximo demais do cotidiano.

Com a Temporada 2 de “Daredevil: Born Again” já em exibição no Disney+, o debate tende a ganhar força. A fala do showrunner adiciona uma camada extra ao que já vinha sendo discutido: até que ponto narrativas sobre vigilância, repressão e poder institucional são apenas reflexos de um gênero — ou, de fato, espelhos de padrões que continuam a se manifestar.

Em última instância, o que Scardapane descreveu como “chilling parallels” não é só uma curiosidade de bastidores. É um lembrete de que a linha entre ficção e realidade pode ficar mais tênue do que parece, especialmente quando o enredo toca em mecanismos históricos de controle e intimidação.


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Fonte: TheWrap.

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