Depois de 19 anos, Lair segue como um dos jogos de dragão mais subestimados do PlayStation. Lançado para o PS3 e desenvolvido pela Factor 5, o título ficou marcado principalmente por problemas de controle e por questões técnicas na estreia — mas, com o tempo, ganhou a reputação de uma experiência singular, com uma ambição rara para a época.O jogo é exatamente o tipo de fantasia que só os videogames conseguem entregar com tanta intensidade: você não apenas assiste a uma guerra, você voa por cima dela, desce sobre o campo de batalha e transforma o caos em espetáculo. Em Lair, a destruição não é um detalhe; é a proposta. E é justamente por isso que o título chama atenção até hoje, mesmo quando é lembrado de forma incompleta ou injusta.
Lair: um clássico “quase”, travado por um lançamento problemático
É comum encontrar Lair citado como um daqueles jogos que muita gente espera ver passando na TV em algum momento nostálgico — como se fosse parte do cenário cultural de uma época. Só que, na prática, o título acabou ficando preso a uma reputação difícil de desfazer.
A principal razão foi a decisão de lançar o jogo no PS3 com controles baseados exclusivamente no SixAxis, o sistema de detecção de movimento do console. Na teoria, era uma ideia ousada. Na prática, virou um obstáculo para a maioria dos jogadores.
Segundo a própria história do desenvolvimento e do pós-lançamento, a Factor 5 acabou implementando, alguns meses depois, um patch que adicionou controles tradicionais com analógico. A empresa sustenta que essa era uma funcionalidade que deveria existir desde o início, mas que a PlayStation não teria permitido incluir no lançamento.
O resultado foi que Lair chegou ao mercado com uma barreira de entrada alta demais: para muita gente, simplesmente não dava para aproveitar o jogo como ele pretendia ser jogado.
Mesmo assim, há sinais claros de que o projeto tinha ambição de sobra. A trilha sonora, assinada por John Debney, ajuda a construir a sensação de escala e grandiosidade. E basta assistir a trechos de gameplay para entender o que estava em jogo: não é apenas “um jogo com dragões”. É um jogo que tenta colocar o jogador no centro de uma guerra, com movimentos e ações que reforçam a ideia de poder absoluto — como se você fosse uma arma viva, capaz de decidir o ritmo do combate.
O problema é que, no lançamento, o conjunto falhou em entregar essa promessa. Além dos controles baseados em movimento, o título também enfrentou críticas relacionadas ao estado técnico e à dificuldade de jogar com conforto.
Há registros de que a própria PlayStation chegou a enviar um guia extenso de revisão — com 21 páginas — para ajudar pessoas a aprenderem o esquema de controle considerado “ridículo” por parte da comunidade. Quando um jogo precisa de um material tão detalhado para ser entendido, é sinal de que a experiência não está fluindo como deveria.
Por que Lair ainda importa hoje
O que torna Lair tão relevante para quem gosta de jogos é a distância entre o potencial e o que foi entregue. Em vez de ser um fracasso total, ele parece mais um caso em que a genialidade ficou escondida atrás de escolhas ruins. A comparação com outros títulos que sofreram com circunstâncias de lançamento é inevitável: há jogos que não eram “ruins”, mas foram colocados no mercado em condições que impediram o público de enxergar o que havia de melhor.
Em Lair, essa diferença fica ainda mais evidente porque a proposta é rara. Poucos jogos oferecem a combinação de escala, destruição e fantasia em que você realmente monta um dragão e participa da guerra de cima para baixo. A sensação é de espetáculo contínuo, com batalhas que parecem maiores do que o próprio console consegue sugerir em termos de “mundo vivo”.
E, mesmo quando o jogo não acerta tudo, ele acerta o essencial: a fantasia de poder.
Há também um componente prático que pesa contra o título: Lair é um jogo de PS3, e isso limita o acesso. Sem uma forma simples de jogar em plataformas atuais, ele acaba virando um relicário para quem ainda tem o console — ou para quem encontra o jogo em coleções, promoções antigas ou acervos. É uma pena, porque a experiência não é apenas “curiosa”; ela tem identidade própria.
O que falta na indústria para jogos como Lair voltarem
Quando se fala em jogos como Lair, a conversa inevitavelmente chega ao custo e ao risco. O título teria custado US$ 25 milhões para ser produzido. Convertendo para valores aproximados, isso equivale a cerca de R$ 130 milhões (dependendo da cotação do dólar no período). Para comparar, o orçamento reportado de Concord teria sido muito maior: US$ 400 milhões, algo na faixa de R$ 2,1 bilhões.
O ponto central é que, com orçamentos cada vez mais altos, as empresas passam a investir menos em ideias que não garantem retorno imediato. Em vez de permitir que estúdios menores e equipes mais ousadas experimentem, o mercado tende a exigir “apostas seguras”. Isso reduz a chance de surgirem jogos com premissas grandiosas e execução arriscada, como a de Lair.
Há ainda o efeito colateral de um período que mudou o ritmo do setor: a pandemia e as transformações que vieram depois. A indústria passou a operar com mais cautela, e o resultado é um catálogo que, em muitos casos, parece mais calculado do que inventivo.
Lair representa justamente o contrário: um jogo que tenta ser videogame em sua forma mais literal, com uma fantasia que nenhum outro meio consegue reproduzir do mesmo jeito.
É verdade que existem jogos recentes com dragões — como Crimson Desert, que inclui montaria —, mas nem sempre a experiência chega ao mesmo nível de liberdade e grandiosidade. Em Lair, a premissa é tão exagerada quanto envolvente: você está lá para destruir, e o jogo tenta sustentar essa ideia do começo ao fim.
Quando a proposta é limitada por mecanismos como temporizadores ou por estruturas mais “controladas”, a sensação de poder pode diminuir.
O que fica, então, é uma pergunta incômoda: se Lair não voltar a ser produzido, como preservar esse tipo de experiência? A resposta, por enquanto, é a nostalgia — e a possibilidade de jogar o que ainda está disponível.
Como jogar Lair hoje e por onde começar
Para quem ainda tem acesso ao PS3, Lair pode ser encarado como um jogo que amadureceu. Embora tenha sido lançado com problemas, patches posteriores corrigiram parte das maiores dificuldades. Isso não transforma o título em “perfeito”, mas pode tornar a experiência mais acessível para quem quer entender por que ele ficou tão marcado.
Não é um convite para comprar um console apenas por causa de um jogo — até porque, na prática, poucas pessoas fazem isso por um único título. Mas vale a recomendação para quem já tem o PS3 ou encontra o jogo com facilidade: Lair é uma peça importante da história do PlayStation 3, e também um lembrete do que a indústria já tentou fazer quando ainda havia espaço para apostas mais extravagantes.
Se você estiver em dúvida sobre por onde começar, há um caminho simples: ouça a trilha sonora de John Debney. Mesmo quem não jogou pode perceber, só pela música, que o projeto tinha ambição e intenção. E, para quem joga, a sensação é parecida: Lair parece ter sido “feito para ser maior” do que foi no lançamento — e, com o tempo, parte dessa grandeza volta a aparecer.
Resumo rápido: Lair é subestimado porque chegou ao mercado com controles e desempenho que atrapalharam muita gente, mas sua proposta de fantasia — voar, destruir e viver a guerra como dragão — continua funcionando como uma experiência bem própria.
Você chegou a jogar Lair na época? Ou ficou só com a curiosidade de quem ouviu falar, mas nunca conseguiu experimentar? A discussão sobre jogos subestimados é sempre um bom ponto de partida — e Lair é um daqueles casos em que vale a pena revisitar.
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Fonte: comicbook



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