Nota: este texto contém spoilers do episódio 8 da 3ª temporada de “Euphoria”.
A morte de Rue no final da 3ª temporada de “Euphoria” não foi apenas um choque narrativo. Em um vídeo de pós-episódio divulgado após o capítulo, o criador da série, Sam Levinson, afirmou que a decisão de tirar a personagem central da trama tinha como objetivo contar uma história “honesta” sobre dependência química — e sobre o que acontece quando a recaída vence. Para Levinson, o desfecho representa uma realidade dura: “o final honesto é que pessoas como Rue não fazem isso”.
O episódio, intitulado “In God We Trust”, acompanha diretamente as consequências do que ocorre minutos antes. Faye (Chloe Cherry) trai Rue (Zendaya), enquanto Laurie (Martha Kelly) e Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) chegam ao limite do acordo que envolve drogas e a atuação da DEA. A sequência acelera o caos e, ao mesmo tempo, prepara o terreno para o que se torna o ponto de virada emocional do capítulo.
O que acontece com Rue antes do desfecho
Depois de uma fuga de alto risco da fazenda, Rue consegue escapar em meio a uma perseguição. Mesmo assim, ela fica gravemente ferida após quase ser capturada. Alamo, então, cuida dos ferimentos e entrega analgésicos para aliviar a dor — mas, na prática, a medicação funciona como gatilho para a recaída.
A série deixa claro que o problema não é apenas a vontade ou a força de caráter: é um ciclo em que o corpo e a mente são empurrados para o mesmo lugar.
Enquanto isso, o destino de Laurie se torna ainda mais trágico. A fazenda é tomada pela DEA e, para evitar o tempo de prisão, Laurie tira a própria vida. A trama também revela um detalhe que explica parte do descontrole do episódio: Alamo teria trocado as ambulâncias responsáveis por transportar as drogas do México.
A manobra permitiria que ele mantivesse o carregamento para si e, ao mesmo tempo, “tirasse o cheiro” de cima — uma tentativa de proteger o próprio negócio enquanto o restante do esquema desmorona.
O capítulo então muda de tom. Um boletim de notícias informa que Fez (Angus Cloud) conseguiu fugir da prisão usando parkour. A notícia funciona como combustível para Rue, que decide, de forma impulsiva, ir atrás do amigo.
A jornada leva a personagem a um bairro onde ela corre de policiais e, em meio ao pânico, encontra versões passadas de si mesma: Jules (Hunter Schafer) e a irmã. Em seguida, Rue também vê a mãe — e é nesse momento que a série deixa explícito o que estava por trás das visões.
Na realidade, Rue não está apenas “viajando” emocionalmente: ela está morrendo. As alucinações são consequência direta de sua condição física, agravada pelos analgésicos adulterados com fentanil. Ali (Colman Domingo) encontra Rue no sofá, encerrando o arco com uma imagem que mistura cuidado, impotência e despedida.
“Final honesto”: por que Sam Levinson escolheu esse caminho
Ao comentar o episódio, Sam Levinson disse que a intenção era mostrar um desfecho coerente com a realidade do vício. Segundo ele, a morte de Rue é uma forma de contar uma história “honesta” sobre dependência química, sem romantizar recaídas ou transformá-las em lições fáceis. “Foi um final honesto”, afirmou, destacando que, na vida real, nem todo mundo consegue atravessar o pior momento.
Levinson também mencionou que a decisão foi pensada para Angus (Cloud), ator que interpretou Fez nos primeiros anos da série e que faleceu. Ele ressaltou que queria contar a história não apenas para o público, mas também para pessoas que, na vida, não recebem uma segunda chance. A fala do criador reforça como o episódio funciona como um ponto de encontro entre tragédia pessoal e comentário social.
O criador ainda atribuiu importância ao modo como Colman Domingo articula esse sentimento para o público. Levinson descreveu a cena como uma experiência atravessada por “uma espécie de impotência”, sugerindo que o espectador precisa sentir o limite do que pode ser feito quando a dependência já tomou conta do corpo e do tempo.
Ali, o sistema e o impacto do fentanil
Depois de alguns meses dentro da narrativa, Ali reflete sobre o sistema político e social que, segundo a série, ajuda a criar as condições para a epidemia de drogas nos Estados Unidos. A fala do personagem conecta o drama individual a um problema maior: a dependência não é apenas uma falha pessoal, mas também um motor de negócios que se alimenta da vulnerabilidade.
Essa reflexão aparece também no arco emocional de Ali. Ao relembrar o que aconteceu com Rue, ele admite que tentou seguir em frente, mas que a dor e a recaída do mundo ao redor tornam seus esforços insuficientes.
No episódio, ele anuncia que aquela seria sua última reunião de NA (Narcotics Anonymous). É um gesto que, ao mesmo tempo, carrega esperança e frustração.
Enquanto isso, Cassie (Sydney Sweeney) e Lexi (Maude Apatow) lidam com o luto de Rue. A série também abre espaço para a discussão sobre religião e para o tipo de conforto que pode existir quando a vida é incerta e não oferece garantias. A sensação é de que cada personagem encontra uma forma particular de lidar com o vazio deixado pela perda.
Grief, segredos e um confronto final
O episódio não se limita ao desfecho de Rue. Ele também costura outras pontas soltas que se acumulam ao longo da temporada. Maddy (Alexa Demie), por exemplo, vai cumprir o que prometeu a Alamo para salvar Cassie das cobranças de Nate (Jacob Elordi).
A trama revela ainda um segredo que pesa sobre Lexi: Cassie mantém a morte de Nate escondida da irmã. Com isso, Lexi precisa viver o luto em silêncio, sem a possibilidade de elaborar a perda com todas as informações.
No clube de strip, Maddy encontra Alamo para acertar a dívida. O personagem confessa que sonha em se estabelecer, ter filhos e construir uma vida “normal” — mas o plano desaba quando Ali chega ao local com uniforme militar e tranca a porta do estabelecimento.
A partir daí, o episódio assume um ritmo de vingança: Ali inicia um tiroteio procurando Alamo para responder pela morte de Rue.
O confronto evolui para um duelo no estilo faroeste, com uma proposta de Alamo para encerrar a situação sem que mais pessoas se machuquem. A tensão cresce até o detalhe que muda tudo: a arma de Alamo está sem balas.
Bishop (Darrell Britt-Gibson) teria dado a arma descarregada, e isso abre espaço para Ali atirar e matar Alamo em um clímax sangrento.
Depois do desfecho, Bishop leva Maddy para casa, enquanto o restante do grupo de Alamo fica livre. A cena funciona como um “respiro” dentro do caos, mas não apaga o que foi mostrado: a violência como consequência de escolhas feitas sob pressão e sob a lógica do vício e do crime.
O retorno ao Texas e a despedida
O final do episódio volta para um lugar que já havia aparecido na estreia da 3ª temporada: a casa remota no Texas onde Rue buscou refúgio. Ali informa aos presentes sobre a morte da personagem e é recebido com comida e café.
Em vez de apenas encerrar o arco com luto, a série transforma a cena em um ritual de memória. Ali agradece a Rue e “abençoa” o que ela representou, dizendo adeus à personagem como se fosse a última vez.
No vídeo, Colman Domingo também comenta a experiência de viver o arco. Ele afirma que teve um ótimo tempo na temporada e conecta a história a uma ideia de poesia: a vida, segundo ele, pede que as pessoas acreditem nisso e se entreguem ao que ela significa.
“Euphoria” está disponível nas temporadas 1 a 3 no HBO Max.
Confira mais novidades em nosso Portal de Notícias!
Fonte: TheWrap.



Comentários
Carregando...