A estreia da 3ª temporada de Euphoria chega com a promessa de que nada será pequeno: Euphoria 3ª temporada coloca Rue (Zendaya) de volta no centro do caos, agora com um tom mais “ocidental” e uma escalada que mistura violência, fé e um tipo de sobrevivência que beira o absurdo. No primeiro episódio, a série não apenas retoma personagens e linhas narrativas — ela reposiciona o universo para um novo patamar, com a protagonista envolvida em um esquema de contrabando que atravessa a fronteira e a empurra para uma engrenagem ainda mais perigosa.
Logo no início, Rue está no deserto do estado de Chihuahua, no México, e precisa lidar com o próprio corpo e com as consequências do que carrega. Depois de ser ajudada por moradores locais para sair de um atoleiro, ela se vê presa novamente, desta vez ao tentar atravessar uma espécie de rampa improvisada sobre um muro de fronteira. A cena funciona como uma declaração estética: a produção aposta em um visual mais “Western”, com trilha sonora que remete a cowboy vibes — em contraste com o estilo mais sintético e orquestral associado a trabalhos anteriores. É também uma forma de sinalizar que a série está mudando de pele, sem abandonar o que sempre a tornou viciante.
Uma abertura que já define o novo rumo
Quando Rue desmaia em um celeiro em El Paso, ela acorda com a ajuda de uma família local. A filha do fazendeiro oferece leite recém-ordenhado e, a partir daí, a narrativa começa a costurar o que parece ser um “disfarce” moral: Rue se apresenta como repórter de um jornal universitário, dizendo que estaria “expondo” o tráfico de drogas entre os dois países. A generosidade da família, porém, não é apenas um gesto humano — é parte do mecanismo dramático que permite que Rue siga viagem.
O episódio então a coloca em um roteiro de estrada que vai do Texas até a Califórnia. No caminho, a série reforça a sensação de que Rue está sempre um passo atrás do próprio destino. Ela chega a uma casa onde reencontra um grupo de personagens que já tinham aparecido antes, incluindo Laurie (Martha Kelly). E é aqui que a trama revela uma das viradas mais cruéis do episódio: Rue é lembrada do “empréstimo” que fez no passado — e do valor que cresceu de forma absurda.
O que antes era uma dívida de US$ 10 mil (algo em torno de R$ 50 mil, em conversão aproximada) agora se transforma em US$ 43 milhões (aproximadamente R$ 215 milhões). A série trata esse salto como um detalhe que dá vertigem: não é só dinheiro, é poder. Laurie, então, impõe um acordo para que Rue “pague” a conta, transformando a protagonista em uma espécie de mula — alguém que transporta drogas para quitar a dívida. O contrato é ainda mais humilhante porque inclui elementos concretos do controle de Laurie, como o fato de um carro ficar literalmente preso no México.
O contrabando vira rotina — e a violência ganha método
O episódio deixa claro que o contrabando não é uma aventura pontual. Rue passa a atuar em um processo conhecido como “body packing”, que, na prática, envolve engolir cápsulas ou balões com substâncias ilícitas para eliminá-las após atravessar a fronteira. A série não economiza no desconforto: a cena é descrita com visceralidade e intenção de provocar no espectador, como se o roteiro quisesse deixar claro que, para Rue, não existe “meio termo”. Ou ela entra de cabeça nesse sistema, ou ela se destrói.
Ela também recruta Faye (Chloe Cherry), ampliando a rede de execução do esquema. Rue sobe na hierarquia após algumas “corridas”, mas o episódio sugere que esse tipo de sorte nunca dura. Em uma noite de conversa, Faye menciona Wayne, um colega que estaria tentando sair do ramo para investir em abacates, guardando dinheiro em um cofre no porão. A ideia de “roubar” o que ele juntou aparece como uma fantasia perigosa — um sinal de que Rue está cada vez mais disposta a arriscar tudo para escapar do controle de Laurie.
Ao mesmo tempo, a série não abandona o lado humano da protagonista. Em uma passagem por um apartamento em Los Angeles, Rue encontra Lexi (Maude Apatow) e tenta manter as coisas sob controle, evitando perguntas diretas sobre planos e futuro. A conversa revela que Gia (Storm Reid) está na faculdade no Arizona, mas o subtexto é que as relações familiares parecem ter sido engolidas pelo “trabalho” e pela sobrevivência. Lexi, por sua vez, aparece em um cenário que mistura cotidiano e ambição: ela trabalha como assistente de direção em LA Nights, uma produção noturna que envolve carregar café em grande escala e circular com a chefe Patty Lance (Sharon Stone). É um detalhe que humaniza o universo: mesmo em meio ao caos, a vida segue em rotinas e pequenas tarefas.
Fez está vivo — e a série lida com o luto de forma indireta
Um dos pontos mais comentados do episódio é a confirmação de que Fez (Angus Cloud) está vivo no universo de Euphoria, cumprindo uma pena de 30 anos. Lexi evita atender ligações, o que sugere tanto culpa quanto medo do que pode acontecer se o passado voltar com força total. A escolha de roteiro, além de servir à trama, também conversa com o contexto real: Angus Cloud faleceu em 2023, e a série parece optar por manter a presença do personagem de forma indireta, sem transformar o episódio em um memorial explícito.
Enquanto isso, outras histórias seguem em paralelo. Cassie (Sydney Sweeney) vive em uma espécie de “bolha suburbana”, gravando vídeos sensuais para redes sociais. Nate (Jacob Elordi) volta para casa em um carro chamativo e confronta a esposa por ela passar o dia se dedicando ao conteúdo em vez de tarefas domésticas. O episódio trata essa dinâmica como uma mistura de controle, desejo e disputa de poder — e a conversa rapidamente descamba para um terreno de tensão sexual, com o roteiro deixando claro que a vida “normal” deles é apenas uma fachada.
O projeto financeiro do casal também aparece: Nate assume o negócio de construção do pai e trabalha em um empreendimento chamado Sun Settlers, descrito como uma instalação de transição para o fim da vida, voltada para a geração baby boomer. É uma contradição que combina com o tom de Euphoria: enquanto a série mostra a morte como negócio e planejamento, Cassie tenta monetizar a própria imagem para bancar a reforma da casa e, principalmente, o casamento.
Em um jantar à luz de velas, Cassie tenta convencer Nate a pagar US$ 50 mil em flores (aproximadamente R$ 250 mil). Ele recusa, e ela responde com a solução que o episódio trata como inevitável: OnlyFans. A negociação culmina em um acordo com uma condição específica — Nate aceita, mas não quer que Cassie apareça com nudez em conjunto com o rosto. A cena fecha com ironia, como se o roteiro dissesse que, mesmo quando tudo parece “resolvido”, o controle continua sendo a moeda principal.
Fé, recaída e uma nova ameaça no horizonte
O episódio também traz um momento de reconstrução espiritual. Em um encontro com seu padrinho Ali (Colman Domingo), Rue discute os passos do programa de recuperação e a ideia de fé como algo que vai além de detalhes literais. A série usa a conversa para mostrar que Rue está tentando “fazer certo”, mas ainda assim carrega a urgência de quem não tem tempo para errar. Ela decide começar a ler a Bíblia do começo, durante viagens de Uber, como uma tentativa de organizar a própria mente.
Essa busca por sentido, porém, não impede que Rue volte ao trabalho. Ela parte para uma nova missão ligada à origem das drogas — uma fazenda onde, segundo a narrativa, há um tipo de violência brutal com galinhas. A cena seguinte a coloca em uma casa com uma festa, mulheres seminuas e um clima que, para Rue, vira mais uma etapa de improviso. Ela encontra Tish (Emma Kotos), conversa sobre uma cirurgia recente e acaba se envolvendo na festa tempo demais, até ser retirada à força.
É quando Rue é apresentada a Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje), descrito como o “rei” de clubes de strip em cinco locais na Califórnia. A série transforma o encontro em uma mistura de ambição e desespero: Rue diz que quer trabalhar nos clubes para escapar da situação atual. Mas o episódio vira o jogo com rapidez. As drogas que ela trouxe de Laurie estão adulteradas com fentanyl, e Tish morre. A pergunta que paira no ar é direta: Laurie estaria sabotando Alamo? Ou isso é o início de uma guerra entre facções?
Rue tenta explicar tudo em uma espécie de apelo desesperado, misturando narrativa, culpa e fé. A cena final dessa sequência é simbólica e tensa: Rue, do lado de fora, equilibra uma maçã verde na cabeça enquanto Alamo aponta uma arma. A maçã é atingida e ela sobrevive, como se a série quisesse reforçar que, para Rue, a crença pode ser tanto proteção quanto armadilha. A sensação é de que Deus — ou a sorte — ainda está do lado dela, mas por quanto tempo?
O que vem depois: cruzamentos difíceis e uma guerra maior
Com personagens agora separados por classes e rotinas, fica mais difícil para Euphoria fazer encontros “fáceis”. O episódio sugere que a série quer construir uma guerra de drogas mais ampla, na qual Rue é engolida cada vez mais fundo. A possibilidade de conflito entre Laurie e Alamo adiciona uma camada de tensão que vai além do drama pessoal: é um tabuleiro de poder, com consequências reais e mortes que não podem ser ignoradas.
Para quem esperava apenas a repetição do caos adolescente que marcou as temporadas anteriores, a estreia deixa claro que Euphoria está em outra fase. Ainda há deboche, desejo, estética e performances marcantes — mas agora tudo parece mais pesado, mais calculado e mais perigoso. E, mesmo quando a trama se torna difícil de acompanhar emocionalmente, ela continua funcionando como entretenimento: a série encontra maneiras de ser desconfortável sem perder o ritmo.
Se a pergunta era se a Euphoria 3ª temporada conseguiria manter o mesmo poder de atração, o episódio 1 responde com uma aposta clara: Rue vai continuar sendo o centro de um universo que não dá descanso. E, desta vez, a fronteira não é apenas geográfica. É moral, física e psicológica.
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Fonte: harpersbazaar



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