Dorohedoro voltou. Depois de mais de seis anos desde a estreia da primeira temporada, o anime desembarca novamente na Netflix com a mesma mistura explosiva de violência sem freios, humor absurdo e um mundo que parece sempre à beira do colapso. Em sua 2ª temporada, a série do estúdio MAPPA mantém a estética grotesca e o ritmo caótico que fizeram o público se apaixonar, mas muda o foco: em vez de centralizar tudo no protagonista de rosto de jacaré, Kaiman, o enredo passa a abrir espaço para um conjunto mais amplo de personagens e conflitos.
Baseado no mangá de Q Hayashida, Dorohedoro continua a explorar um universo dividido em camadas, onde magia, monstros e seres humanos convivem de forma instável. E, nesta nova fase, a sensação é clara: o caos não diminuiu. Pelo contrário, parece ter ganhado novas formas — e, em alguns momentos, até mais crueldade.
O foco sai de Kaiman e vai para o tabuleiro inteiro
A temporada começa apresentando, logo no início, uma nova perspectiva sobre um personagem que já havia aparecido na primeira fase: Risu. Na trama anterior, ele surge como a cabeça de uma pessoa morta em circunstâncias extremamente estranhas. Agora, em sua forma humana, Risu tenta entender o que aconteceu com ele e, principalmente, quem foi o responsável pela morte. Após escapar da família En, ele se dirige ao esconderijo de um grupo antigo: os Cross-Eyes.
Os Cross-Eyes são humanos que matam feiticeiros. Essa simples definição já ajuda a entender por que o conflito ganha ainda mais peso na 2ª temporada. Se antes a história orbitava em torno de uma busca e de um choque entre mundos, agora ela amplia o debate para um confronto mais central: o embate entre humanos e usuários de magia. Com isso, a narrativa passa a sugerir que não se trata apenas de “quem está certo”, mas de quem tem poder, quem manipula e quem decide as regras do jogo.

Três mundos, uma mesma violência
Para quem acompanha Dorohedoro, o universo não é apenas um cenário: é uma engrenagem que explica por que tudo parece dar errado. A série organiza sua mitologia em três reinos. Existe o Hole, o mundo industrial dos humanos. Há também a Terra do Inferno, onde vivem os demônios. Por fim, o Mundo dos Feiticeiros, um lugar perigoso, cheio de usuários de magia — muitos deles cultuando demônios e assassinando humanos sem qualquer restrição.
Essa estrutura é importante porque dá contexto ao tipo de caos que a série entrega. Não é um mundo “aleatório”; é um sistema em que cada grupo enxerga o outro como ameaça, alimento ou inimigo. Assim, a violência não surge apenas como choque gratuito. Ela funciona como linguagem narrativa, reforçando o quanto as relações entre esses seres são instáveis e, muitas vezes, irreconciliáveis.

Personagens caricatos, mas com impacto emocional
Mesmo quando a série parece mergulhar de cabeça no grotesco, Dorohedoro ainda encontra espaço para algo raro: desenvolvimento de personagens com densidade emocional. Há figuras que, à primeira vista, lembram caricaturas cômicas — como Johnny, uma espécie de barata do tamanho de uma pessoa —, mas que, em momentos específicos, acabam atingindo o espectador de um jeito inesperado.
Essa capacidade fica evidente em uma sequência que abre caminho para o tom da temporada. No fim do primeiro episódio, dois dos principais personagens ligados ao universo dos feiticeiros, Noi e Shin, entram em uma confrontação intensa. Noi é capturada por um bando de Cross-Eyes fora do padrão, enquanto Shin tem a garganta cortada e é atacado com facadas múltiplas, em uma cena que começa brutal e termina ainda mais caótica.
É um começo que não economiza no impacto. E, ao mesmo tempo, funciona como um convite: a série deixa claro que não vai “reduzir o nível” para agradar quem prefere violência mais contida. Aqui, o choque é parte do contrato.

Mais gore e mais capricho visual: a MAPPA eleva o nível
Se existia alguma dúvida sobre se a 2ª temporada diminuiria o ritmo de violência, a série responde com firmeza. A produção parece ter decidido aumentar a aposta. A MAPPA traz uma qualidade de animação que, segundo as impressões iniciais, está mais refinada do que na primeira temporada, com atenção maior aos detalhes de fundo e às cenas de ação que exigem do espectador um olhar constante.
Isso acontece porque a coreografia e o impacto visual são intensos. Há também um sentimento de “contaminação positiva” por tendências recentes do estúdio. Quem acompanha o universo de animes modernos pode perceber ecos de estilos de ação mais elaborados, com cenas desenhadas para causar tensão a cada segundo. Em Dorohedoro, isso se traduz em violência que não é só explícita: é coreografada, pensada e apresentada com uma estética que mistura horror e absurdo.
Música que vira o tom da cena
Além do visual, a trilha sonora também ajuda a construir a sensação de instabilidade emocional que a série provoca. Nesta temporada, o grupo japonês (K)NoW_NAME retorna com composições que misturam elementos de jazz e funk, criando melodias que parecem “encaixar” em um mundo que não deveria fazer sentido.
O resultado é um tipo de camada sonora que reforça o contraste típico de Dorohedoro: a história alterna entre momentos de humor e horror com precisão que não parece acidental. A música não só acompanha a cena; ela ajuda a guiar o espectador por mudanças bruscas de atmosfera.
O que ainda falta revelar
Com apenas quatro episódios exibidos no início da temporada, a sensação é de que Dorohedoro está apenas aquecendo. A série já coloca personagens em situações absurdas, muitas vezes hilárias, mas que viram violência em questão de instantes. E, ao mesmo tempo, abre perguntas que parecem destinadas a sustentar o restante do arco.
Entre as curiosidades que ficam no ar estão a vontade de entender melhor o passado de Kaiman, a identidade do assassino de Risu e quem, de fato, está por trás da liderança dos Cross-Eyes. A trama também reforça um ponto que costuma ser a marca registrada da obra: mesmo em um mundo cruel e grotesco, as pessoas ainda carregam humanidade. Elas podem agir de forma brutal, mas não são reduzidas a monstros sem motivo.
Dorohedoro está disponível na Netflix e também no Crunchyroll, e a 2ª temporada chega com a promessa implícita de continuar sendo o que sempre foi: uma história que não pede desculpas pelo excesso, mas que encontra espaço para emoção.
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Fonte: Polygon.



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