Se existe uma obra que ajudou a moldar o battle shonen como conhecemos hoje, essa obra é Dragon Ball. A série começou com um tom mais leve e aventureiro, mas logo migrou para batalhas cada vez mais intensas, torneios e vilões com ameaças em escala crescente — um modelo que atravessou décadas e influenciou gerações de mangás e animes. E, depois de um período em que o público foi conquistado por novos “clássicos” do shonen na era da pandemia, uma pergunta voltou a ganhar força entre fãs: qual é a próxima grande evolução do gênero?Nesse debate, Dandadan aparece como um candidato forte. Lançado no Jump+ e popularizado ainda mais após a estreia do anime, o trabalho de Yukinobu Tatsu vem chamando atenção não apenas pela ação, mas pela forma como mistura referências e estilos de maneira própria. Em vez de repetir o caminho tradicional do shonen com a mesma fórmula de sempre, a obra transforma o gênero em um mosaico: horror sobrenatural, ficção científica, elementos de mecha e kaiju, além de um romance que não funciona como “enfeite”, mas como parte central da tensão narrativa.
O que faz Dandadan soar como evolução do shonen
O ponto de partida de Dandadan é, no mínimo, curioso: Ken Takakura (Okarun) e Momo Ayase começam uma busca por itens roubados — as “joias” da família de Okarun — e, a partir daí, o enredo se expande para a construção de um grande objetivo envolvendo yokais e um universo cada vez mais amplo. O que poderia ser apenas mais uma aventura escolar com monstros da semana ganha outra dimensão quando a série passa a combinar gêneros com naturalidade, sem perder o ritmo das lutas.
Essa mistura é uma das marcas mais visíveis do trabalho de Tatsu. A obra tem um sistema de poderes que lembra a lógica de séries clássicas do gênero, mas também aposta em design de personagens com personalidade exagerada — algo que remete ao estilo de JoJo’s Bizarre Adventure — e em ataques de energia com impacto que lembram a “linguagem” de Dragon Ball. Só que, em vez de usar essas referências como cópia, Dandadan transforma cada elemento em parte de um conjunto caótico e, ao mesmo tempo, muito bem coreografado.
Mesmo quando a estrutura inicial se aproxima do formato “monstro da semana”, a série não fica presa nisso. Ela usa o formato para testar combinações: um arco pode trazer terror sobrenatural com fantasmas e assombrações; no seguinte, a história pode avançar para invasões alienígenas; em outro momento, surgem criaturas e situações que dialogam com tradições japonesas como mecha e kaiju. O resultado é que o público raramente sabe o que vai acontecer, mas entende que a obra tem uma lógica interna própria.
Romance no centro: por que isso muda o jogo
Entre as escolhas que mais diferenciam Dandadan de outros shonens está o tratamento do romance. Em muitas obras do gênero, o romance aparece como subtrama, como rivalidade romântica ou como elemento de comédia. Em outras, é evitado por completo. Já em Dandadan, o relacionamento entre Okarun e Momo é construído como parte do motor do enredo, gerando tensão tanto quando os personagens estão juntos quanto quando estão separados.
Isso não significa que a série “força” o casal a cada capítulo. Pelo contrário: ela trabalha com tropeiros comuns de anime e até de dramas coreanos, como encontros constrangedores, momentos de contato físico, beijos acidentais e declarações de amor — mas mantém a dinâmica de alta escola como um obstáculo constante. Os dois têm sentimentos, mas não conseguem lidar com eles do jeito que o público espera, e essa fricção sustenta o drama.
Na prática, o romance funciona como uma camada adicional de conflito. Enquanto as lutas colocam os personagens em risco físico, o relacionamento coloca os personagens em risco emocional. E, em um shonen, essa combinação costuma ser rara: ou a história prioriza apenas a progressão de poder, ou o romance vira um detalhe. Em Dandadan, ele vira linguagem narrativa.
Conexões com Dragon Ball — e por que isso não torna a obra derivativa
É impossível falar de Dandadan sem mencionar Dragon Ball, mesmo que a comparação seja feita com certo exagero. Há semelhanças que saltam aos olhos logo no começo: ambos seguem a aventura de um garoto e uma garota em busca de “bolas” com poderes místicos, disputadas por um elenco crescente de heróis e vilões. Além disso, as duas obras também trabalham com transformações e com a ideia de treinamento para aumentar a eficiência em combate.
Alguns paralelos são ainda mais específicos. O “feixe” de Momo, por exemplo, lembra o Tri-Beam de Tien, enquanto o “tiro” de Jiji pode ser associado ao Kamehameha. Também existe uma semelhança conceitual no uso de um sistema de energia que, de certa forma, conversa com a lógica de Ki presente em Dragon Ball.
Mas o ponto importante é que Dandadan não se limita a copiar. A série parece consciente do que está fazendo: ela usa o repertório do shonen como matéria-prima para criar algo novo. O humor, por exemplo, é um componente essencial. Em vez de tratar as batalhas como algo sempre sério, a obra alterna momentos de tensão com situações absurdas, poses exageradas e interações que deixam o elenco mais carismático.
Isso fica evidente no jeito como a história apresenta seus personagens e como eles lidam com o objetivo central de recuperar as “bolas” — ou, no caso de Dandadan, os itens que carregam poder e despertam interesse de forças externas. A cada nova ameaça, o elenco precisa improvisar, e o improviso vira parte do charme.
De onde vem o estilo de Yukinobu Tatsu
Outro motivo para Dandadan chamar atenção é o histórico do autor. Yukinobu Tatsu já citou Dragon Ball como uma das influências iniciais, ao lado de obras como Ultraman e Berserk. Além disso, o mangaká trabalhou como assistente em projetos de peso, incluindo Fire Punch e Chainsaw Man, além de ter colaborado em Hell’s Paradise. Esse tipo de experiência costuma ajudar a lapidar um estilo próprio: o autor aprende técnicas de ritmo, composição de cenas e intensidade visual, mas aplica isso com uma assinatura diferente.
Em Dandadan, essa assinatura aparece na forma como a arte sustenta a ação. As cenas de luta têm clareza, impacto e variação, e os personagens ganham expressões que reforçam tanto o humor quanto o perigo. É um tipo de qualidade que, quando funciona, faz o público querer acompanhar “na semana seguinte” não só pelo que vai acontecer, mas por como vai ser mostrado.
O que esperar do futuro do shonen
O debate sobre “a próxima grande evolução” do shonen não é apenas nostálgico. Ele tem impacto direto no que o público consome e no que as editoras apostam. Durante anos, o gênero se consolidou em padrões relativamente previsíveis: protagonista com meta clara, treinamento, aumento de poder, vilões com escala crescente e, em muitos casos, romance tratado como detalhe. Dandadan desafia parte dessas expectativas ao colocar gêneros diferentes no mesmo tabuleiro e ao tratar o romance como conflito real.
Além disso, a obra vem demonstrando fôlego. A série segue em andamento e, pelo que indica sua trajetória, não parece estar caminhando para um encerramento imediato. Para fãs de shonen, isso é mais do que uma curiosidade: significa que existe espaço para continuar expandindo o mundo, aprofundar personagens e sustentar o ritmo de surpresas que tornou a obra tão comentada.
Resumo rápido
Em resumo, Dandadan pode não ser uma “cópia” de Dragon Ball — e nem deveria ser. O que ela faz é pegar a ideia central de evolução do gênero, aquela capacidade de transformar o shonen em algo maior do que a soma de suas partes, e aplicar isso em um formato moderno: rápido, visualmente marcante, cheio de referências e, principalmente, com escolhas narrativas que fogem do piloto automático.
Se Dragon Ball solidificou o modelo há mais de 40 anos, Dandadan parece estar mostrando como esse modelo pode continuar evoluindo no presente. E, para quem acompanha o gênero, essa é uma notícia que vale atenção.
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Fonte: screenrant



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